Comentando o editorial “A economia é a base da porcaria”.
    

    A Radiologia Odontológica em função da concorrência entre as clínicas, até certo ponto desleal, que reajusta os preços para baixo e faz com que a qualidade do serviço apresentado e a ética sejam desprezadas por muitos que a praticam, está em uma encruzilhada. Tecnologicamente o progresso é evidente, saímos da idade da pedra, quando o Radiologista tinha apenas um aparelho periapical para executar as técnicas intrabucais, e às vezes uma lateral de mandíbula ou uma ATM, que era realizada por alguns poucos, após muitos anos de prática. Estes fatos não estão muito longe, por volta de 1960, quando a Radiologia era exercida por abnegados Cirurgiões Dentistas éticos ao extremo, chegando a fazer a parte clinica da Endodontia, de colocar um instrumento no conduto radicular para fazer a condutometria, informando o limite ao endodontista para completar o tratamento. Nesta época ninguém desviava paciente ou comentava sobre a má qualidade do serviço observado nas imagens radiográficas, para isto o profissional que tinha o equipamento de raios X, deveria ser acima de tudo um profissional ético e discreto, ou seja, um sacerdote a serviço da Odontologia.
 
    O advento no Brasil no inicio dos anos 70 do aparelho panorâmico, que logo após incorporou o braço cefalométrico e a planigrafia da ATM, foi o que proporcionou uma fase mais científica da nossa especialidade, acabando com o empirismo, ou mais precisamente com o romantismo da Radiologia executada conforme a necessidade clinica. O avanço proporcionado pelas processadoras automáticas e a melhoria dos sistemas de obtenção de imagem da panorâmica, dos filmes e materiais radiográficos, além da imagem digital decididamente mudaram a Radiologia Odontológica. 

    Para exercer com toda a plenitude esta especialidade da Odontologia, além de ser um Cirurgião Dentista com prática em clínica, ele deve ter uma formação abrangente na especialidade. Apenas um odontólogo devidamente treinado em Anatomia, Fisiologia, Histologia, Embriologia e Patologia da cabeça e pescoço, pode indicar a técnica adequada para cada caso clinico, usando o mínimo de exposição com o máximo de eficiência no diagnóstico. Logicamente os conhecimentos de Física, Química, Geometria, Matemática etc., que fazem parte da formação do Técnico, ou do Médico Radiologista, são consideradas imprescindíveis para a obtenção de uma imagem radiográfica de qualidade, também são obrigatórias para nossa especialidade. Por fim a clinica de Radiologia Odontológica precisa de profissionais com conhecimento total do funcionamento da mastigação, oclusão, identificação das estruturas normais, suas variações, bem como a fisiopatologia de dentes, maxilares e órgãos anexos, para tratar e restaurar o equilíbrio estético e funcional da oclusão e da face dos nossos pacientes. Como se isto não bastasse, os conhecimentos básicos de administração, aspectos jurídicos e fiscais; organização do serviço; comando e treinamento da equipe de auxiliares; atualização constante dos conhecimentos em cursos, congressos e visitas técnicas, são deveres do profissional de primeira linha.

    O Tomógrafo Computadorizado Cone Beam nos aproximou da Radiologia Médica e deu ao Cirurgião Dentista mais uma ferramenta de diagnóstico poderosa e precisa, mas que representa ainda mais uma obrigação de treinamento do profissional em informática, por exemplo, além das outras necessidades já descritas.

    A qualidade do produto ou do serviço prestado é considerada a principal vantagem competitiva por 70% das empresas privadas, de pequeno e médio porte de capital fechado do mundo, segundo o International Business Report (IBR), em reportagem publicada recentemente no site www.empreendedor.uol.com.br, na secção Notícias. No Brasil, os empresários relataram que a maior vantagem competitiva é a qualidade, em seguida citaram as práticas empresariais éticas (74%), a força da marca (69%), sendo a política de preços (59%) e a economia de escala (44%) as menos votadas. Estes dados demonstram que a Radiologia Odontológica e Imaginologia Brasileira estão na contramão de uma administração adequada quando coloca os preços e limitação da área de exame acima da ética e da qualidade de serviços.

    A minha opinião, por ter participado ativamente de todas as fases da evolução da Radiologia Odontológica, a divisão da mesma em pequenas porções do todo que é o exame do paciente é uma volta ao passado, não da Radiologia romântica dos anos sessenta, mas de seus primórdios quando não se conhecia todas suas dificuldades e complexidades, muito menos que a radiação ionizante deve ser utilizada com as devidas cautelas, pois pode ser prejudicial aos pacientes e para profissionais que a utilizam para o diagnóstico.

    Os profissionais que não emitem laudos, ou seja, um relatório sobre as condições de toda a área odontológica que foi exposta à radiação ionizante, causando um efeito biológico ao paciente, provavelmente não o faz devido ao desconhecimento do que é a Radiologia pode auxiliar a Odontologia a recuperar para o paciente de uma maneira global a sua capacidade de da parte estética. No que depender dos Cirurgiões Dentistas éticos, honestos, sinceros e coerentes, com o juramento feito na nossa formatura, a Radiologia Odontológica não deve ser feita pelo exame de pequenas porções do paciente, mas sim pela observação e análise de todo o conjunto estomatognático.

Orivaldo Tavano
Especialista em Radiologia Odontológica e Imaginologia
Professor Titular de Radiologia da FOB/USP (aposentado)
Professor da Pós Graduação da CPO SL Mandic/Campinas SP

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